POEMA 

A PORTA

Autor: LÉO DE OLIVEIRA

Março de 2024




Bate à porta o andarilho

A freira, o padre

A madre o morto

A mulher fácil

O homem solitário

A ruiva

O ríspido

O sossegado

O pescador

O fortuito

O obeso

O magro e o pardo

O preto e o flagelado

A noiva

O noivo

A meretriz

O ator a atriz

O soturno e o noturno

O calvo

O cão a cadela

O manso a megera

O pensativo

A foragida o foragido

Os mesmos de sempre

O filho perdido

A filha esquecida

O pintor a pintora a escultora

O nadador a nadadora

O desvalido o inválido

O torturador a perseguidora

Os nobres os pobres os ricos

A mulher virtuosa

A mulher recatada

A sábia

Os tortos e os mortos

Os faceiros as faceiras

O indelicado

A colombina

O mestre-sala

A porta-bandeira

A estrelinha do cinema

Os desalmados

O assessor a assessora

O empregado e o patrão

O piloto de avião

O condutor do trem

O homem sem uma das mãos

O motorista de ônibus

O sobrinho do Papa

A noviça rebelde

O pianista com seu piano

O mecânico com suas máquinas

O agressor a agressora

O violonista fumando

Os vendedores ambulantes

Alguns donos de tabacarias

Um médico e a enfermeira

A médica e um faxineiro

O náufrago e sua prole

O capitão do navio fantasma

Muitos fantasmas de plantão

O engenheiro estrábico

O escritor ressabiado

Um lenhador que veio lá do frio

O cortador de lenha distraido

Policiais, delegados, soldados

Os homens calejados

Os escolados

Os ex-patriados

Alguns homens patetas

A menina com sua peteca

A vendedora de flores

O vendedor de sonhos

A criança esquecida pela vida

Um vivente apenas

Os azarados

Os alvejados

A escrava de um homem

O empregado e o patrão

Um homem escravizado

Um casal abilolado

Um homem terno de terno

O sapateiro das ‘’estrelas’’

O astronauta sem foguetes

O pião rodando sozinho

A luxuria no corpo de uma mulher bonita

Mulheres lindas

Mulheres feias

O adolescente feito homem

Um dono de ‘’Televisão’’

O artesão sorridente

A moça bonita sem estribeiras

Um cavalo manco

Uma vaca quase morta

Um homem se dizendo Santo

O palhaço do circo

O circo todo

O malabarista morto por dentro

Um percevejo imenso

Um velho tenso

Uma velha sofrida

Um fotógrafo das antigas

O homem asqueroso

A mulher asquerosa

O vendedor de flores

A vendedora de rosas

O prisioneiro sem presidio

O advogado de pernas tortas

Um cozinheiro com o seu liquidificador

O artista frustrado

O mágico sem talento

A viúva chorosa

O povo em polvorosa

O humorista sem-graça

Os desgraçados

Os padrinhos e seu afilhados

O suicida arrependido

Os assassinos sofridos

As megeras e o homens domados

A Maria das Dores

As Marias sem dores

Os seguidores de Cristo

Um grupo de mulheres, todas amigas

A Sandra, a Sônia, Gertrudes,

Judith, Tereza, Maria, Suzana,

Rita, Júlia e a Dolores,

Os falsos Cristos

Os apostolos endoidecidos

Um indio com suas indias

O africano perplexo

O fazendeiro muito só

Um soldado trazendo uma ‘’aurora’’

A mãe do soldado caindo na porta

A mulher das paçocas

O bêbado sorrindo de sí mesmo

Um alfaiete caindo aos pedaços

A princesa sem castelo

O rei sem os seus súditos

O boxeador atento

Um repentista arfante

O dono do elefante

O carrasco das guerras

A menina com sua fantasia

O corvo sangrando

A andorinha ferida

O beija-flor enlouquecido

A garçonete sofrida, sóbria, ferida

O barman desesperado

O escrevente acanhado

O juiz muito sossegado

O político mentiroso

O caçador de baleias queimado de sol

Os apanhadores de sal

Os calmos e os nervosos

O bandido bonzinho

O ladrão e seus parças

O caçador de tesouros

Todos os mendigos da praça

A costureira com a sua tesoura

Os atravessados e os não

O faroleiro sozinho

Todos batendo à porta

O batedor de carteiras

O salvador da pátria

O herói da cidade

O homem mau de verdade

O fedelho a fedelha

Toda a humanidade que não se importa

Os humanos que se importam

O construtor de portas

O débil a débil

O arrombador de portas

O ladrão de carros

Os gripados

O atleta aposentado

Os perdidos das noites e madrugadas

Os notáveis

Os não notados

Os autores de livros infantis

Os soltadores de pipas e balões

Os arquivistas mais sensíveis

Todos os ingênuos do mundo

O homem do outro mundo

O chefe das milicias

O laboroso

A laborosa

Gente correndo da polícia

Homens de esquerda

Homens de direita

Caucasianos

Arianos

Estadunidenses

Filósofos arrependidos

Matemáticos acabrunhados

Astrônomos arredios

Ufólogos entre astros

Uma estrela do cinema

Um astro do cinema

O homem musculoso e pequeno

Os anãos e anãs

As guerreiras sem guerra

Os guerreiros sem ar

Os cheios de cobiças

Os canalhas e os simplistas

Os vasculhadores

Aqueles que se perderam em seus caminhos

Todos batendo à porta

Procurando ninhos

O desacreditado

O matador de passarinhos

Os irritados

Os desprovidos de consciência

Cientistas

Os dentistas com muitos dentes

Os dramáticos

Os do Ártico

As francesas de belas pernas

Todos na mesma porta

Batendo na mesma porta

Como se esta porta

Já não fosse mais uma porta...

O sogro e a sogra batendo nessa porta

Os netos correndo rumo à porta

O detonador de portas

Batendo na mesma porta

Na porta o soldado faminto

A dona de casa chegando e sorrindo

O zelador querendo zelar além da porta

Formigas

Baratas

Ratos

Camundongos

Uma ave baleada

Borboletas morrendo...

Quatro cães de uma só vez...

Tentando entrar por essa porta

Os caciques e as sereias

Os analfabetos em grupos

Os alunos de todos os cursos

O locutor sem voz

A cumplice de um crime

Os criminosos ‘’bonzinhos’’

A doidivana feliz

A mulher velha bonita

Os alquimistas

O foguista

A feirante

O farsante a farsante

O fabricante de sonhos

O homem dos filmes

Os aloprados, todos felizes

Os infelizes todos aloprados

A miss já idosa

Com suas belas rugas

A rebelde sem causa

O homem que se recusava a entrar pela porta

Os apostadores

Os ganhadores de apostas

Os homens sem rostos

As mulheres com muitos rostos

Uma vadia acusando vadios

Criminosos apavorados

Religiosos calados

Fiéis ludibriados

Homens sorridentes

Mulheres com suas lágrimas

Os lastimáveis

Os devoradores perdidos

A menina caliente

O dono do cálice

O cronista sombrio

A socióloga titubeante

O estrangeiro

A estrangeira

Os imitadores de artistas

Todos batendo na porta...

Na mesma porta...

O desbravador dos mares

O surfista sem suas ondas

O alpinista enfadonho

O colecionador de revistas antigas

O cheirador de pó

O fumador de maconha

O fumante inveterado

O homem sem CPF

O morador das cavernas

O sociopata feliz

O homem de olhos verdes

O homem de olhos estranhos

O recatado a recatada

Os que haviam sobrado de uma batalha

Os que nunca tinham sido convidados

Os que optaram por bater à porta

Os ávidos

As ávidas

Os atormentados por nada

Os atormentados por tudo

Os que simplesmente se avoraram pela vida

Os ácidos

Os plácidos

Os mesmos de sempre

Os centenários

Os de meia-idade

Os de idade prá lá do meio

Os muito velhinhos

Os náuticos

Os candidatos mais prováveis a

Retornarem antes dessa ‘’travessia’’

Os indeléveis

Os pesados, os leves

Os terrestres e os aéreos

Todos a caminho da mesma porta

Navegadores desavisados

Corsários feridos

Os cheios de fadigas

Os cosmonautas comilões

Os saudistas que vieram do frio

Os cambistas

Toda uma gama de artistas

Os intimidadores e os intimistas

Os larápios, coitados

Os que traziam nódoas nas roupas

Os costureiros sisudos

As costureiras

Os acabrunhados calados

As acabrunhadas aviltadas

Os desregrados

Os dominadores

Os dominados

Os acorrentados

Os sem correntes

Os depenados...

Parentes descrentes

Moçoilas maquiadas.

Por esta porta dos ‘’inesperados’’ seres

Os que esperam ‘’esperas’’

Mundo de esferas

Correndo em direção da porta

Partos

Um parto na porta

Vários partos

Fetos aos gritos

Um apito de trem que chega à porta

Novidades

Atrocidades

Paz

Por essa porta passam os abandonados

Os que vivem das intrigas

O artista sem arte

A parte mais simples de uma parte

Aquele ser portentoso

O que odeia e não odeia ao mesmo tempo.

Por essa porta passam outras portas

O astro magnífico do box

A mulher desmazelada

O homem acumulador

O fastio

A festa

O meio da festa

O fim da festa...

O homem moreno e bonito

A mulher bonita e morena

O medidor de terras

O grego aprovado em concursos

A desdita

Todas as sombras

O furador de poços

O rei do petróleo

O rei do gado

O rei de nada

Os súditos cansados

Os ódios

Todos os ódios

A alegria incontida

As contas de lágrimas

As borras de terra

O valente mais covarde

O artista por sobre a arte

A nave sem revolta

O mar que balança

A menina de trança quer entrar por essa porta

Muitas espumas, esperanças

O garoto peralta, na pedra mais alta

O caçador de pássaros

Querendo pássaros

Sofreguidão

Coração que não bate

O latir de um cão avisando sua proximidade

Ele também quer atravessar a porta

Mas ele não atravessa

Se espanta com o tamanho da estrutura

Que o lança no mundo do medo sem razão...

Tentam entrar por essa porta os construtores de janelas

Os que querem abrir fendas

Os mais cautelosos

Os dadivosos

Aqueles que se espantam

Com todos os seus resultados...

E por esta porta entram todos...

Os que piscam os olhes

Os que cospem fora suas salivas todo o tempo

Os que odeiam as emoções alheias

Os que sabem das dores do mundo

Os que são imundos

Os que vivem dos seus absurdos

Os que soletram coisas estranhas

Querendo sempre soletrar seus mundos

E eles querem agora a porta

Como se com essa porta

Pudessem se salvar das torturas do fundo

De um mundo que os solapa na carne

De um mundo que os destinam ao passado

Quando suas vidas eram apenas

Vidas serenas, solicitas, fecundas...

Batem à porta o mundo

O plantonista de hospital

Aquele que sempre se achou o tal

O pobretão com cabeça imperial...

O tal, a tal

A leveza cerebral

Na porta a estradeira

Ela vinha trazendo sua bandeira

Entrou pela porta sorrateira

Olhou ao redor

E nada mais viu do que a nudez da incerteza

Afinal, suas estradas não vieram com ela.

Bate à porta a mulher mais vivida

Seu homem também bate à porta.

Por essa porta passam os atrevidos

E eles sabem dos seus motivos.

Passam os da estética

E também os de dentro, os de fora.

As rosáceas passam pela porta

As fambroezas

Orquídeas

As filhas e os filhos

As meras lembranças do martírio.

Passam pela porta os tortos sem compromisso

Os issos e aquilos

A leveza escondida em pesos

Os de má índole

Os de boa

Os que idolatram seres estranhos e os que vagam sem juizo.

Pela porta as tortas

Os tortos

O tártaro

Os dentes sangrando

Depois dos ataques dos sabres

Daqueles sabres que atingiram também

Peitos e tórax

De quem eles achavam inimigos.

Porta ainda aberta para acessos.

Do que renasce a cada dia

E o que se aflige com o próprio afligir-se.

Porta voltada para uma escuridão de luz

Que assombro! São vertigens.

Por essa porta os contumazes

O mestre nas suas artes marciais

O caçador de arco-iris

Os aprendizes do nada

Perecíveis. Homens perecíveis. ,

Por essa porta, passam muitas portas.

Por ela passa o sabido e o sábio

A bela flor do maracujá

Os manjares

Um altar, dois altares e os querubins silenciosos.

Por essa porta

A fecundidade aflita

O fecundo

A fecunda

A casa e a tenda

O resto do mundo

A cena incerta da última cena da peça

Pedaços

De um filme

Fotogramas

Os riscos da noite sobre a cena do drama

Tudo morto antes da porta

Depois da porta a vida

Um pulsar

Um olhar de sede

De água

De sons

Imagens

E lentidões...

Por essa porta, vão entrando

Os bêbados intelectuais

Os poetas marginais

Mariposas

Caipiras, comunista e até os fascistas.

Entram também os leitores assíduos de livros

Os livreiros

Os donos de sebos

Os escritores mortos

Os aspirantes a escritores

As meninas com laços nos cabelos

Os homens carecas

os cabeludos

a ruiva azeda

o moleque travesso

o maluquinho da escola

o dono dos pássaros

a meretriz solitária

o condutor do trem

uma leva de aposentados

o dono da praça

alguns abilolados

o palhaço titereteiro

um mestre-cuca cansado

o artista que foi vaiado

o sacristão e o padre

a freira e o covarde

o corneteiro sem farda

militares aflitos

o policial arrependido...

Por essa porta

Uma infinidade de outras portas

Umas lisas, outras tortas

As coloridas portas

A portas fechadas

As entreabertas

As partidas ao meio

Aquelas sem fechaduras

Algumas muito trancadas

As antigas

As modernas

Duas mil portas giratórias

As que permitem acesso

As que não permitem

Aquelas com gretas imensas

E outras que se arrastam no chão

Todas portas

Importantes ou não

As de fábricas

As dos escritórios

As mais funestas, aquelas dos velórios  

Portas que passam por esta porta

A única porta que sobrou

De uma casa que não mais existe

De um dia que insiste

Em passar pela própria porta...

 


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